Todo ciclo macro se resume a duas perguntas:
- O crescimento está acelerando ou desacelerando?
- A inflação está acelerando ou desacelerando?
Com base nestas duas perguntas criam-se 4 regimes. Cada regime tem classes de ativo que ganham e que perdem. É o “Relógio de Investimento” que gestores usam como base:
| Regime | Crescimento | Inflação | Ação do BC | Quem ganha? |
| Recuperação | ↑ | ↓ | Juros baixos ou caindo | Ações + Crédito |
| Reflação / Superaquecimento | ↑ | ↑ | Começa a subir juros | Commodities + Ações Cíclicas |
| Estagflação | ↓ | ↑ | Juros alto, travado | Caixa + Ativos Reais + Dólar |
| Desinflação / Recessão | ↓ | ↓ | Corta juros | Títulos Longos (Duration) |
O segredo não é saber onde estamos, mas para qual regime estamos indo, porque o mercado precifica 6 a 12 meses à frente.
Contexto no Brasil
Aqui no Brasil este relógio gira com 4 motores.
Motor 1: Ciclo da Selic (o mais importante)
O Brasil é o país do juro alto, então quase tudo gira em torno de “o BC está subindo, parado no topo ou cortando?”. A regra de ouro: o melhor momento de comprar risco é o fim do ciclo de alta, não o início dos cortes.
Quando o primeiro corte acontece, a curva de juros já precificou tudo.
Moto 2: Risco Fiscal
Define o prêmio da parte longa da curva (NTN-B e prefixados longos) e o câmbio. Pode estragar um ciclo de cortes: a Selic cai, mas os juros longos sobem por desconfiança fiscal, e desta forma a bolsa não anda.
Motor 3: Commodities e China
O Brasil exporta minério, petróleo, soja e carne. Commodities em alta trazem dólar entrando, real forte, arrecadação maior e Ibovespa subindo (Vale e Petrobras pesam muito no índice).
Motor 4: Liquidez Global (Fed e Dólar)
Fed apertando e DXY forte fazem o dinheiro sair de emergentes. Fed afrouxando e dólar fraco fazem o fluxo estrangeiro vir para o B3. Os melhores ciclos da bolsa brasileira (2003 a 2007, 2016 a 2017) foram de dólar global fraco somado a commodities em alta e juros locais caindo.
De onde vem o PIB?
Consumo das famílias: tudo que as pessoas compram, como comida, roupa, carro e serviços. Corresponde de 60% a 65% do PIB.
Gastos do governo: salário de servidores, saúde, educação. Corresponde cerca de 20%.
Investimento: empresas comprando máquinas, construindo fábricas, imóveis. Cerca de 16% a 18%.
Exportações menos importações: o que vendemos para fora menos o que compramos de fora. Pequeno no saldo, mas volátil.
Primeira lição importante: como o consumo das famílias é mais da metade do PIB, a economia brasileira depende muito de renda, emprego e crédito. Se as pessoas estão empregadas e conseguem crédito barato, elas compram, e a economia anda.
Crescer não é o mesmo que acelerar
Este é o ponto que gera confusão. Vejamos uma analogia para simplificar:
- Velocidade = quanto a economia está crescento, por exemplo 2% ao ano.
- Aceleração = se esse crescimento está aumentando ou diminuindo.
| País | Tri 1 | Tri 2 | Tri 3 | Situação |
| Brasil | 1,0% | 0,6% | 0,2% | Crescimento desacelerando |
| Argentina | -0,5% | -0,1% | 0,3% | Retomando crescimento |
| Paraguai | 0,8% | 0,7% | 0,8% | Estável |
Neste exemplo, o Brasil ainda cresce, mas o mercado já trata isso como uma notícia ruim. A Argentina ainda está fraca, mas o mercado já trata isso como notícia boa.
Por que o mercado olha aceleração e não o nível?
Porque o preço do ativo reflete expetativa futura. Se tudo está ruim, mas melhorando, os lucros futuros das empresas vão melhorar, então as ações sobem antes da melhora aparecer no jornal.
O problema do PIB: ele chega atrasado
O PIB é divulgado pelo IBGE a cada trimestre, cerca de 2 meses depois que o trimestre acaba. Ou seja, o PIB de julho a setembro só sai no começo de dezembro. Se você esperar o PIB para decidir, chegou tarde.
Por isso, os analistas dividem os indicadores em 3 classes: antecedente, coincidente e defasado.
Antecedente: é o farol. Ele mostra para onde a economia vai. Exemplos, confiança, PMI e crédito.
Coincidente: velocímetro. Mostra como a economia está agora. Produção industrial, varejo, IBC-Br.
Defasado: o retrovisor. O que já aconteceu. PIB, desemprego.
Principais indicadores
Índce de Confiança (FGV) · Antecedente
- O que é: uma pesquisa com empresários e consumidores perguntando “como você vê os próximos meses”.
- Principais: ICI (Confiança na Indústria), ICC (Confiança do Consumidor), ICS (Serviços) e ICOM (Comércio).
- Quem publica / quando: FGV IBRE, no fim de cada mês.
- Como interpretar: 100 é a média histórica. Acima de 100, otimismo; abaixo, pessimismo. Mas lembre-se de que o que importa é a direção.
- Por que antecede: o empresário confiante contrata e investe depois de ficar confiante. A confiança vem antes da ação.
PMI (Índice de Gerentes de Compra) · Antecedente
- O que é: uma pesquisa com gerentes de compras de empresas, perguntando se pedido, produção, estoques e contratações estão maiores ou menores que no mês anterior.
- Quem publica / quando: S&P Global, nos primeiros dias úteis de cada mês. Tem PMI de Indústria e de Serviços.
- Como interpretar: a linha mágica é 50. Acima de 50, a atividade está crescendo em relação ao mês anterior. Abaixo, encolhendo.
- O detalhe: dentro do PMI, olhe o subíndice “Novas Encomendas”. Pedido novo hoje é produção amanhã. Se novas encomendas passam de 50 antes do índice cheio, a retomada está começando.
Concessão de Crédito (Banco Central)
- O que é: quanto dinheiro os bancos emprestam no mês para famílias e empresas.
- Quem publica / quando: Banco Central, no fim do mês seguinte (“Estatísticas Monetárias e de Crédito”).
- Como interpretar: crédito crescendo significa que as pessoas vão consumir e as empresas vão investir. Como o consumo é mais da metade do PIB, crédito é combustível direto.
- Ligação com juros: o crédito depende muito da Selic (taxa básica de juros). Selic caindo tende a baratear o crédito, que aumenta, que puxa economia.